O Beato de Terno e Gravata: Como Enrique Shaw Antecipou o ESG em Meio Século

Conheça a história do executivo argentino que provou ser possível lucrar sem sacrificar a dignidade humana e cujo modelo de gestão acaba de ser canonizado pelo Vaticano.

Redação | Green Business Post | 24 fev 2026.

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Resumo: O Legado de Enrique Shaw

  • A Terceira Via de Gestão: Shaw rejeitava tanto o comunismo quanto o capitalismo selvagem, propondo uma economia centrada na dignidade humana.
  • ESG na Prática: Décadas antes do termo existir, ele implementou fundos de pensão, planos de saúde e participação nos lucros.
  • Liderança Empática: O famoso episódio da transfusão de sangue revela uma conexão profunda entre capital e trabalho.
  • Reconhecimento Global: O processo de beatificação validado pelo Vaticano em 2025 consagra o modelo do “santo de terno e gravata”.

No mundo corporativo atual, siglas como ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa) e Sustentabilidade são onipresentes. No entanto, muito antes dessas métricas se tornarem padrão de mercado, um executivo argentino já as aplicava no chão de fábrica com uma intensidade revolucionária. Enrique Shaw (1921-1962), ex-diretor da Cristalerias Rigolleau, não via a empresa apenas como uma geradora de dividendos, mas como uma comunidade produtiva.

Nem Luta de Classes, nem Lucro Desenfreado: A Terceira Via

Um dos pontos mais fascinantes da trajetória de Shaw era sua clareza ideológica. Enrique Shaw não era comunista; pelo contrário, era um crítico ferrenho do coletivismo, vendo no comunismo uma visão materialista que negava a dimensão espiritual do homem e a liberdade individual. Ao mesmo tempo, ele era um crítico severo do capitalismo selvagem e individualista, afirmando que o lucro como único fim da existência era tão perigoso quanto o comunismo por ignorar a dignidade humana.

Sua atuação era pautada pela Doutrina Social da Igreja, uma “terceira via” fundamentada em encíclicas como a Rerum Novarum e a Quadragesimo Anno. Para Shaw, a solução dos problemas sociais não residia na luta de classes — pilar do comunismo que ele combatia —, mas na fraternidade entre elas. Ele defendia que a empresa possuía uma “função social” e baseava sua gestão em três pilares fundamentais:

  • Dignidade da Pessoa Humana: O entendimento de que o trabalhador nunca deve ser tratado como mercadoria.
  • Solidariedade: A colaboração mútua entre patrões e empregados para o bem comum.
  • Subsidiariedade: A ideia de que estruturas maiores devem apoiar, e não sufocar, a iniciativa individual e das pequenas comunidades.

O Lucro é o Oxigênio, não o Destino Final

Shaw utilizava uma metáfora precisa para definir sua visão de negócios: o lucro é como o oxigênio para o corpo humano. Você precisa dele para sobreviver, mas ninguém vive apenas para respirar. Para ele, o propósito final de uma companhia era o bem comum.

Essa filosofia foi colocada à prova em 1961, quando a empresa foi comprada por um grupo americano que exigiu demissões em massa para “otimizar” os números. Shaw, mesmo lutando contra um câncer agressivo, recusou-se a assinar as rescisões. Ele trabalhou noites inteiras para provar tecnicamente que era possível manter a lucratividade sem descartar uma única pessoa. Na prática, Shaw aplicava o que hoje chamamos de S de Social no ESG, priorizando a segurança psicológica e financeira de seus colaboradores em detrimento de margens de curto prazo.

Inovação Social: Do Paternalismo à Autonomia

Diferente de muitos empresários de sua época, Shaw não praticava o paternalismo — aquela atitude de “patrão bonzinho” que cria dependência. Sua gestão era focada na autonomia. Ele implementou inovações que, nos anos 50, eram consideradas radicais:

  • Participação nos lucros: Os operários recebiam uma fatia do sucesso da empresa.
  • Caixas de auxílio familiar: Suporte financeiro para momentos de crise pessoal ou nascimento de filhos.
  • Fundos de Pensão e Planos de Saúde: Proteção que ia além do horário de expediente.

A Transfusão de Sangue que Chocou o Mercado

Talvez o momento mais emblemático de sua trajetória tenha ocorrido em 1962, em seu leito de morte. Shaw precisava de transfusões urgentes. Ao saberem da notícia, 260 operários da fábrica formaram uma fila no hospital para doar sangue ao seu diretor.

A resposta de Shaw ao acordar —

Estou feliz porque o sangue dos meus operários corre em minhas veias”

— é a antítese da luta de classes. Ele provou que, quando a liderança é exercida com sacrifício e respeito, o abismo entre patrão e empregado desaparece em prol de um objetivo comum.

O Veredito do Vaticano e o Futuro das Empresas

Em dezembro de 2025, o Vaticano reconheceu um milagre atribuído à sua intercessão, pavimentando o caminho para sua beatificação oficial. Para o mercado financeiro, o legado de Shaw, propagado por associações como a ADCE – Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (Argentina e Brasil), serve como um lembrete de que a sustentabilidade real não é feita de relatórios coloridos, mas de decisões éticas nos momentos de crise.

Enrique Shaw deixou claro: nada vai bem em uma sociedade onde muitos estão mal. Em uma era de demissões via Zoom e algoritmos frios, o “santo de terno” nos provoca a humanizar a planilha e entender que o maior ativo de qualquer balanço patrimonial ainda é o ser humano.

Ouça a história com maiores detalhes:

Em português: A História do Beato de Terno e Gravata

Em inglês: The Blessed One in a Suit and Tie

Fontes:


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