A Desconexão Chocante da Educação com o Mercado de Trabalho

Choque de Realidade: Seu Diploma Serve Para Quê? A educação brasileira está completamente desviada, ensinando conteúdos que não terão aplicabilidade e não fazem mais sentido no mundo atual, gerando evasão e perda de significado.

Redação | Green Business Post | 04 junho 2025.

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Em um mundo onde a inovação e a adaptabilidade são as moedas mais valiosas, é imperativo que discutamos o papel da educação e seu impacto direto no tecido empresarial do nosso país. Não se enganem: a forma como educamos hoje molda as empresas de amanhã. E, infelizmente, o cenário atual é um alerta vermelho que exige nossa atenção imediata e, mais importante, nossa ação.

A Educação Brasileira: Um Fardo Para os Negócios e um Desafio para o ODS 4

Desde 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem como meta o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4: Educação de Qualidade, buscando assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Contudo, no Brasil, a realidade é desoladora e frustrante.

Existe uma completa desconexão entre o que se ensina nas salas de aula e as necessidades do mundo real. Alunos dedicam anos a “estudar coisas que não vão usar” e a “discutir coisas que não fazem mais sentido“. Já a realidade dos alunos que buscam a universidade pública, muitas vezes devido à percepção de que a universidade privada é “ruim em geral ou cara quando é boa”. O foco quase exclusivo no vestibular para ingresso em universidades públicas, muitas vezes com padrões questionáveis (como a questão das cotas e a redução da complexidade das provas de cálculo em universidades públicas), desvia a educação de seu propósito fundamental: preparar indivíduos para a vida, para o mercado de trabalho e para a solução de problemas complexos.

Essa desconexão, leva a uma “evasão e uma perda de significado da educação tão importante no país“. Os resultados são claros: a melhor universidade nacional, em um ranking global, ocupa a 116ª posição, enquanto outras potências evoluem. É uma bola de neve: temos poucos mestres e doutores qualificados, e um círculo vicioso onde professores mal preparados formam futuros professores mal preparados, perpetuando a estagnação.

Os desafios são múltiplos e profundos:

  • Falta de incentivo e preparação dos professores: Muitos não têm incentivos para inovar, não são avaliados por resultados, e a proficiência e didática – a capacidade de transmitir conhecimento – são muitas vezes ausentes. “Não é salário” o principal problema, mas a falta de exigência de resultados. Os professores podem adotar novas metodologias na rede pública ou privada, mas existe a falta de incentivo e o maior trabalho envolvido sem retorno.
  • Ausência de interdisciplinaridade: O conhecimento é compartimentado, impedindo que os alunos desenvolvam uma visão holística e transdisciplinar, crucial para os desafios do mundo moderno. A serialização e a divisão por disciplinas “não faz mais sentido” nos países mais importantes. Em metodologias ativas, projetos podem abarcar várias disciplinas, com múltiplos professores em sala.
  • Problemas estruturais: A falta de professores, o que leva a improvisações (como um professor de geografia ensinando português) e à impossibilidade de uma verdadeira inclusão para alunos com necessidades especiais, como os neurodivergentes, devido à falta de qualificação e recursos.
  • Atraso metodológico: Enquanto o mundo avança, a educação brasileira, parece presa à “década de 80”, debatendo o “Fiat 147” enquanto outros países correm de “Mercedes” ou “A380”.

Como as Metodologias Ativas Podem Revolucionar o Treinamento Corporativo?

Diante desse panorama desafiador, as empresas não podem esperar que o sistema educacional se reforme sozinho para receber talentos prontos. Pelo contrário, as metodologias ativas de ensino, tão discutidas e defendidas por especialistas, são a luz no fim do túnel e um modelo poderoso para os treinamentos internos e externos das corporações.

Essas metodologias, que estimulam a autonomia, a pesquisa e o pensamento crítico, são “muito mais divertidas” e se opõem diretamente ao modelo tradicional de ensino onde o professor fala e o aluno ouve passivamente, muitas vezes resultando em desinteresse. Elas são justamente o oposto do “eu falando e você dormindo”, um padrão comum “hoje em dia” na educação. A seguir, iniciando pelas atividades consideradas “feijão com arroz”, as principais metodologias de ensino:

  • Aprendizagem Baseada em Problemas e Projetos: nesse modelo, entrega-se um problema real aos alunos, que definem soluções enquanto o professor atua como tutor. Isso estimula a autonomia, a pesquisa e o pensamento crítico. A construção do conhecimento é ativa, não passiva, e pode envolver múltiplos professores de diferentes disciplinas trabalhando juntos em sala de aula, como exemplificado pela construção de paredes na China para ensinar engenharia.
  • Sala de Aula Invertida (Flipped Classroom): os participantes estudam o conteúdo previamente (online, por exemplo) e utilizam o tempo presencial para discussões aprofundadas, resolução de dúvidas e aplicação prática. O professor ou instrutor atua como tutor, fazendo perguntas que instigam a reflexão e o diálogo. Essa abordagem, que otimiza o tempo e garante a participação ativa de todos, contrasta com o ensino tradicional.
  • Gamificação: já é aplicada em pós-graduações e mestrados, pode tornar o aprendizado mais engajador e motivador. Um exemplo seria utilizar o jogo Counter Strike para abordar temas sobre terrorismo. A gamificação, mesmo em temas complexos, pode ser aplicada se houver o entendimento de que se trata de uma metodologia e técnica, lembrando o respeito à classificação indicativa de idade dos conteúdos abordados.
  • Estudo de Casos: também é muito utilizada em mestrados e pós-graduações. Em empresas, simular situações reais ou históricas permite que os colaboradores discutam e elaborem soluções para dilemas corporativos. Mais do que a resposta “certa”, o processo de análise e discussão é o que importa, desenvolvendo a capacidade de tomar decisões complexas e flexíveis. Aqui, “é mais importante o caminho que o lugar onde você chega”.
  • Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade: é diferente da atual fragmentação do conhecimento em disciplinas. A interdisciplinaridade (coisas falando com coisas em disciplinas diferentes) e a transdisciplinaridade (um problema que passa por mais de uma disciplina) deveriam ser normais no construtivismo, mas são raras devido ao conhecimento compartimentado.
  • Uso Intensivo de Tecnologia: um exemplo interessante seria o Google Education (Meet, extensões, enquetes, testes, bibliotecas virtuais) que oferece um suporte monstruoso para a gestão de projetos e aulas, inclusive para o ensino híbrido (online e presencial). A tecnologia facilita a avaliação por entregas e a discussão em grupo, mesmo em ambientes remotos.

Para que tudo isso funcione, no entanto, é preciso que os instrutores e líderes de treinamento sejam proficientes não apenas no conteúdo, mas também nas metodologias de ensino. É crucial que eles tenham a “didática”, ou seja, a “capacitação para a transmissão do conhecimento”, e estejam abertos a aprender e evoluir constantemente, assim como cirurgiões e engenheiros fazem em suas profissões. Eles precisam gostar do que fazem, entender que o “aluno depende [deles] para aprender” e levar a sério a construção de sua própria proficiência.

O Futuro em Nossas Mãos

A educação tradicional, com sua desvinculação da realidade, tem um custo altíssimo para o desenvolvimento do Brasil e para a competitividade de nossas empresas. É uma verdadeira vergonha que, enquanto outros países avançam, o nosso ainda debata questões de décadas atrás.

Mas a boa notícia é que a mudança é possível e as ferramentas já existem. As metodologias ativas não são apenas para escolas; são um plano de ação para que as empresas desenvolvam talentos, promovam a inovação e preparem suas equipes para os desafios do século XXI. É hora de parar de reclamar do sistema e começar a construir o futuro da aprendizagem dentro de nossas próprias organizações. “Quem quer dar um jeito”; o erro muitas vezes não é o sistema, mas a própria vontade de mudar e a seriedade com que se encara a profissão. A questão não é “se podemos”, mas “se teremos a coragem e a vontade” de fazer o que é necessário.

Esse conteúdo se originou no podcast Interjeições do Green Business Post. Lenah Sakai, nossa editora, conduziu a conversa com Marco Aurélio Bassi, educador sênior, há décadas colaborando com a educação tato do Brasil quanto a de outros países, como Angola.

Não perca os próximos episódios para mais insights sobre como a educação de qualidade pode impulsionar um futuro mais sustentável e próspero para nossos negócios, e continue acompanhando as discussões no Interjeições, que incluirão temas como tecnologia assistiva e neurodivergência.

Assista o conteúdo completo a seguir:

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