Acabe com a escravidão – mas em silêncio, por favor. Não estrague o almoço.
O pior golpe que existe, mas que ninguém fala a respeito. Não é droga, nem armas. A terceira atividade criminosa mais rentável do mundo (USD 236 bi – ILO 2024) utiliza pessoas como ativos de longo prazo no tráfico humano.
E a sua organização pode estar contribuindo com este pesadelo. Líderes, é hora de agir.

Redação | Green Business Post | 02 dez 2025.
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O debate global sobre responsabilidade social, ambiental e governança (ESG) alcança picos de complexidade. Contudo, persiste um tema de alto impacto social e econômico que ainda é tratado com um silêncio desconfortável além do universo corporativo: o tráfico humano.
Essa atividade criminosa é a principal engrenagem por trás da escravidão, do trabalho infantil e do trabalho forçado que as empresas tanto se esforçam para evitar em suas cadeias de suprimentos. Conforme abordado no podcast Interjeições do Green Business Post conduzido pela editora Lenah Sakai com o especialista em inteligência Eugênio Moretzsohn, este não é apenas um problema moral, mas uma falha sistêmica que exige a máxima atenção de gestores e líderes.
“Não é um Sequestro, é um Golpe de Engenharia Social”
A maior parte do tráfico humano não ocorre por meio de rapto físico, que é arriscado e trabalhoso. A estratégia dominante é a da engenharia social: o criminoso apresenta-se com a promessa de uma vida melhor ou de um “sonho” (como uma carreira de modelo ou jogador de futebol), levando as vítimas a se deslocarem voluntariamente e, assim, caírem no esquema de forma mais facilitada.
Por que é um negócio tão lucrativo?
O tráfico de pessoas é classificado como a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas ilícitas e o contrabando de armas. A razão é puramente econômica:
- Ativo de Longo Prazo: Enquanto a droga é uma commodity (paga-se, usa-se e é preciso comprar de novo), a pessoa escravizada é um “ativo” que continua produzindo valor (sexual, trabalho, órgãos) por anos — a rentabilidade pode se estender por até 10 anos.
- Impacto Fiscal Negativo: O dinheiro movimentado nessa atividade não retorna à sociedade por meio de impostos, minando o crescimento econômico decente (ODS 8).
Em países como o Brasil, a questão é alarmante. Em 2024, mais de 66 mil pessoas desapareceram (uma média de uma a cada sete minutos), sendo que 52% desse total (cerca de 33 mil) nunca mais são encontradas.
A Vítima Não é Sempre Quem Você Imagina: Onde o Risco Empresarial se Esconde
A vulnerabilidade ao tráfico humano abrange todas as faixas etárias e gêneros, desmistificando a crença de que apenas crianças e jovens são alvo. A demanda do mercado criminoso dita os alvos:
| Perfil da Vítima | Propósito do Tráfico | Detalhe Pertinente ao Negócio |
| Meninos (0 a 12 anos) | Adoção ilegal internacional | Estatisticamente, são preferidos para adoção ilegal devido a fatores históricos e de custo. Dois em cada três desaparecidos nesta faixa são meninos. |
| Jovens Adultas (18 a 25 anos) | Escravidão sexual | Principalmente meninas, pois esta é a vertente que mais gera renda, muitas vezes associada à indução do consumo de outras substâncias. |
| Homens Atléticos/Jovens | Trabalho forçado (Mineração) | Atraídos por falsas promessas de carreira esportiva, são destinados a trabalhos pesados, como cavar em minas e lidar com materiais perigosos. |
| Mulheres Adultas (+30 anos) | Escravidão doméstica e têxtil | Devido à habilidade manual, são forçadas a trabalhar em fábricas de confecção e têxteis em condições análogas à escravidão. |
| Idosos | Experiência balística | Indivíduos mais velhos e “dóceis” são, em casos hediondos, usados para testes de armas de fogo e projéteis. |
🤝 O Tráfico Humano e os 8 ODS da ONU: Um Risco Sistêmico Inadiável
A dimensão do tráfico humano transcende a esfera social, impactando diretamente o arcabouço ESG de qualquer corporação. Ao ignorar este crime, as empresas negligenciam diversos compromissos globais essenciais para o desenvolvimento sustentável.
| ODS | Objetivo | Relação com o Tráfico Humano |
| ODS 1 | Erradicação da Pobreza | O tráfico explora a vulnerabilidade econômica para aliciar vítimas com falsas promessas de empregos e remuneração. O ciclo de escravidão impede que as vítimas e suas famílias alcancem a segurança financeira, perpetuando a pobreza extrema. |
| ODS 3 | Saúde e Bem-Estar | As vítimas são frequentemente submetidas a condições desumanas, violência física e psicológica, doenças e falta de acesso a cuidados de saúde, comprometendo gravemente sua saúde física e mental. |
| ODS 4 | Educação de Qualidade | O tráfico, especialmente o infantil e o forçado, retira crianças e jovens da escola. A falta de educação formal e profissional limita o futuro das vítimas e a capacidade de reintegração social e econômica. |
| ODS 5 | Igualdade de Gênero | O tráfico é frequentemente direcionado a mulheres e meninas (especialmente para a escravidão sexual e doméstica), reforçando a desigualdade de gênero e a violência contra a mulher. |
| ODS 8 | Trabalho Decente e Crescimento Econômico | O tráfico é a raiz do trabalho forçado e da escravidão moderna, minando o conceito de trabalho decente. Além disso, a atividade criminosa não retorna impostos, desviando riqueza do crescimento econômico formal. |
| ODS 10 | Redução das Desigualdades | Este crime ataca desproporcionalmente grupos marginalizados, migrantes e populações em situação de extrema vulnerabilidade, aumentando a desigualdade de oportunidades e o fosso social. |
| ODS 16 | Paz, Justiça e Instituições Eficazes | O tráfico de pessoas é uma atividade ilegal que prospera na ausência de Estado de Direito e instituições de justiça fracas. O combate ao crime fortalece as estruturas de segurança e justiça globais. |
| ODS 17 | Parcerias e Meios de Implementação | A complexidade transnacional do tráfico exige cooperação internacional e parcerias robustas (Governo-Empresa-ONG) para fiscalização das cadeias de suprimentos e ações de prevenção e reintegração de vítimas. |
O Papel de Líderes e Gestores: Como Blindar o Negócio e Agir
Conscientizar-se sobre o tráfico humano é um imperativo ético e um componente crucial da gestão de riscos (ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes). Para o mundo corporativo, o foco deve ser na prevenção e no due diligence rigoroso:
- Disseminação Interna: Líderes e gestores devem promover a conscientização em suas equipes, colaboradores e parceiros. Assim como em treinamentos de segurança, o objetivo é criar uma cultura de prevenção, alertando sobre a técnica do “golpe” (promessas falsas de emprego, carreiras internacionais etc.).
- Fiscalização da Cadeia de Valor: É fundamental analisar fornecedores, agências de modelo, de recrutamento e quaisquer parceiros que lidam com a movimentação de pessoas. Agências aparentemente legítimas podem ser fachadas para aliciamento.
- Apoio a Iniciativas de Prevenção: Empresas podem firmar parcerias com organizações sociais civis (OSCIPs) ou ONGs que trabalham na mitigação do risco. O apoio a institutos como o Keruv, por exemplo, foca em conscientizar e educar a população.
A inação é o maior risco. Como apontado pelo especialista, a cada 7 minutos uma pessoa desaparece. A conscientização e o enfrentamento proativo desse tema pelos líderes empresariais são a chave para assegurar não apenas o futuro de seus negócios, mas a segurança e a dignidade de toda a sociedade.
Acesse aqui os slides da palestra de Moretzsohn do Instituto Keruv:
Assista ao podcast completo:
Fonte: International Labor Organization.

