A Bilionária, o Congresso e a Aposta do Século: O Mercado de Predição É o Novo Cassino de Wall Street?

Inovação financeira ou risco social desregulado? A cruzada bilionária dos “event contracts” divide reguladores, levanta suspeitas de conflito de interesse em Washington e exige uma governança que transcenda o mero lucro.

Redação | Green Business Post | 16 dez 2025.

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O mercado de apostas e previsões, impulsionado por plataformas digitais como Kalshi e Polymarket, está no centro de uma das mais complexas e acaloradas batalhas regulatórias e políticas dos Estados Unidos. A promessa é sedutora: oferecer ao público acesso a “mercados futuros de eventos” (event contracts), transformando previsões sobre resultados eleitorais, premiações e até mesmo crises políticas em ativos financeiros negociáveis.

Para empresas que movimentam um volume financeiro astronômico, a chave para a operação em solo americano é ser classificado como um produto de investimento legítimo, e não como jogo de azar, que é amplamente restrito em nível estadual. Essa busca por legitimidade chocou-se com a realidade da política em Washington e levantou sérias preocupações sobre integridade de mercado, saúde pública e conflito de interesse.

O Disfarce de Derivativos: Quando a Aposta Veste Terno de Commodity

No cerne do debate, reside a classificação desses contratos. As plataformas de previsão argumentam que seus produtos se enquadram na jurisdição da CFTC (Commodity Futures Trading Commission), o órgão regulador federal que supervisiona os mercados de futuros e commodities nos EUA. Para o ecossistema financeiro, obter a chancela da CFTC é o caminho para operar legalmente em todo o país, equiparando-se a derivativos de soja, ouro ou petróleo.

No entanto, críticos, como a deputada democrata Dina Titus, apontam que a natureza dos contratos — apostas sobre quem ganhará um Oscar ou o resultado de uma eleição — carece do que a própria CFTC define como “propósito econômico” legítimo, sendo, na prática, apostas sofisticadas.

A acessibilidade aqui é crucial: nos mercados tradicionais de derivativos, como futuros, o investidor está negociando a propriedade ou o preço futuro de um ativo real (como um barril de petróleo ou uma commodity agrícola), com proteções legais e regulatórias. Nos mercados de previsão, o investidor aposta no resultado de um evento e não se torna “dono” de nada, levantando dúvidas sobre a proteção ao consumidor e a transparência do processo, como já alertaram reguladores estaduais.

A Teia de Interesses: O Comissário da CFTC que Virou Conselheiro e Pôs em Xeque uma Nomeação Presidencial

A tentativa de legalização ganhou contornos de escândalo em torno de Brian Quintenz, ex-comissário da CFTC, que votou em questões que envolviam a licença de operação para o setor e, posteriormente, atuou como conselheiro de uma das maiores plataformas, Kalshi.

A congresista Dina Titus expressou publicamente sua preocupação, alegando potencial conflito de interesse (um termo técnico que, em linguagem cotidiana, significa que a pessoa pode ter se deixado influenciar por um interesse privado ao exercer uma função pública) na obtenção da aprovação regulatória. A controvérsia escalou a ponto de afetar sua subsequente nomeação para uma nova função de alto escalão na administração Trump, que acabou sendo cancelada em meio à investigação.

Essa situação expõe a fragilidade da integridade no aparato regulatório e a influência do lobby de um mercado emergente bilionário sobre as decisões que moldam a economia digital.

Integridade em Colapso: O Risco Real de ‘Mercados de Assassínio’ e a Epidemia Silenciosa do Vício

O risco moral desse mercado vai além da mera classificação financeira. A antecessora e concorrente, Polymarket, já enfrentou escândalos graves. Foi expulsa dos EUA por permitir apostas em eventos de alto risco e de integridade duvidosa, como a possibilidade de assassinato de figuras políticas ou a eclosão de uma guerra civil.

O perigo, como alertam os críticos, é que isso cria um mercado de incentivos à violência, onde indivíduos com interesse financeiro no resultado podem tentar influenciá-lo diretamente, seja em um jogo de futebol (visto o risco de manipulação por jogadores) ou em eventos políticos. A falta de controle de integridade nessas plataformas é um ponto de vulnerabilidade legal e social, tornando-se um risco de “insider trading” para eventos como premiações, onde os jurados poderiam apostar sabendo do resultado.

Para além do risco de manipulação, a saúde pública entra em pauta. Reguladores de Connecticut e Massachusetts emitiram ordens de “cessar e desistir” contra plataformas de previsão, classificando-as como jogos de azar não licenciados. A expansão do mercado de apostas online é vista como uma crescente ameaça de saúde pública, associada ao aumento de casos de vício em jogos, com custos sociais elevadíssimos para as famílias e para o sistema de saúde.

A permissão para menores de 21 anos participarem em alguns desses mercados, em um país com regras estritas para o consumo de álcool e entrada em cassinos, adiciona uma camada de preocupação sobre a vulnerabilidade da juventude a esses hábitos.

A Responsabilidade da Governança Multissetorial

O mercado de previsão, tudo indica, veio para ficar. Contudo, em uma perspectiva de negócios responsáveis, o caminho à frente não é mais sobre o debate de se ele é jogo ou investimento, mas sim sobre a urgência de uma estrutura de governança que equilibre os interesses diversos.

Para Lenah Sakai, generalista em ESG+ e autora desta investigação sobre mercados futuros nos EUA, a lição a ser aprendida pode estar no modelo brasileiro de governança da Internet, consolidado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Desde sua criação, o CGI.br utiliza um formato multissetorial pioneiro, que reúne representantes do governo, do setor empresarial, da academia e da sociedade civil para estabelecer diretrizes estratégicas e padrões de uso da rede.

Ao invés de deixar a regulamentação apenas nas mãos de uma agência federal de commodities (CFTC) ou de interesses puramente estaduais, o mercado de previsões deveria adotar uma abordagem similar. Um modelo de governança multissetorial para o setor de event contracts permitiria:

  1. Inclusão de Saúde Pública e Social: A sociedade civil e especialistas em saúde mental teriam voz ativa para definir limites de exposição, regras de proteção ao consumidor e estratégias de mitigação de vício.
  2. Integridade do Mercado: Acadêmicos e membros da indústria poderiam colaborar para criar e auditar algoritmos de detecção de manipulação e “insider trading” de eventos, garantindo a lisura do mercado.
  3. Transparência e Inovação Responsável: O setor empresarial e o governo poderiam trabalhar juntos para fomentar a inovação, mas sob um arcabouço de transparência e prestação de contas que não comprometa a ordem social.

A adoção de uma governança multissetorial para os mercados de previsão é a forma mais sólida e democrática de conferir a legitimidade que a indústria tanto busca. É um imperativo categórico para qualquer negócio que almeje prosperar de forma sustentável, provando que é possível gerar valor financeiro sem ignorar as profundas responsabilidades sociais e a integridade que a era digital impõe.

Fontes:

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