O ESG não é suficiente para atender a demanda das pessoas e nem para enfrentar adversidades como a atual pandemia. Precisamos de algo além, algo greenest.

*Por: Lenah Sakai | 22 fev 2021 | Collaborative Progress Licenseª

O assunto da pandemia do COVID-19 já cansou muita gente, mas não poderei deixar de mencioná-la, pois ela trouxe uma avalanche de situações novas para todos, evidenciou a fragilidade da vida humana e o nosso despreparo perante adversidades. Além disso, ela é somente um de vários outros desafios que estão por vir e nós precisamos estar munidos de novas práticas.

Pensando nisso, trago a relevância que a área de sustentabilidade tem perante desafios, mudanças, riscos, crises e adversidades no geral. Muito mais que meio ambiente, os especialistas desse mercado precisam acompanhar os principais recursos que impactam a vida humana, sejam eles tempo, pessoas, energia, água, alimentos, ar etc. e utilizar desse conhecimento para melhor sustentar a humanidade e a vida como um todo. Por isso, a importância de entender as relações de trocas que ocorrem, ou os conhecidos negócios e mercado, porque estão o tempo todo lidando com os tais recursos e são eles que demonstram nossas demandas e definem nosso futuro.

Desde criança, admiro essas relações de troca e percebi que cada conjunto humano possui o seu modo de realizá-la. A partir de 2013, iniciei a profissionalização desse conhecimento sobre tendências de mercado, economia, comportamento humano, boas práticas organizacionais, dentre outros e acabei fazendo conexões que me deram acesso a degraus para outro patamar.

Esse outro nível permite que organizações antecipem situações, estejam na vanguarda acompanhando tendências, adaptando-se às mudanças e se tornando mais resilientes perante adversidades. E os responsáveis por servir de base para esse patamar mais elevado são os aprendizados sobre colaboração, cultura empreendedora e negócios sustentáveis que adquiri.

Para compartilhar esse aprendizado criei um novo conceito com o objetivo de fortalecer e disseminar de forma mais didática esse conhecimento. As organizações que buscam estar nesse patamar mais elevado são os Greenest Business (negócios mais sustentáveis) e eles se sustentam no tripé do Collaborative Progress, Cultura Empreendedora e Green Business.

O que está ditando o futuro?

Não tirando o mérito da busca pelo ESG (Environment, Social and Governance) – sigla em inglês para a adoção de estratégias para o impacto ambiental, social e a gestão diferenciada pela governança corporativa – que é bem interessante para a profissionalização da empresa e dos processos como um todo, ela não é suficiente para atender as demandas do mercado. O ESG não está necessariamente acompanhando os movimentos da comunidade de tecnologia que está ditando os rumos da humanidade atualmente. Precisamos estar mergulhados no mundo deles.

O desenvolvimento tecnológico está mudando a relação das pessoas com entidades diversas, dentre elas, representativas, financeiras, regulatórias e governamentais. Estamos caminhando para complexidades como vazamentos de dados sensíveis à redução de poder de instituições governamentais.

As tecnologias como bitcoin, blockchain, internet distribuída, inteligência artificial, satélites, redes socias e outros estão trazendo uma nova realidade para o mundo e as organizações não podem ficar perdidas sem saber que rumo tomar. Pensando nisso, trago aqui um tripé que considero de extrema importância para os negócios que querem estar à frente junto com as organizações que são de tecnologia, pois elas, sim, já possuem grande parte dos diferenciais no modo de atuar. A começar pela cultura de colaboração.

1. Progresso Colaborativo

Em 2011, quando estudava para o vestibular em um cursinho, me incomodei com o ambiente negativo e pesado que os estudantes criavam para si. Era muito repetitivo o discurso de competição pelas limitadas vagas das melhores universidades. Para mim, essa lógica não fazia sentido, já que estudantes da mesma área se tornariam colegas no mercado e se complementariam com as inúmeras especializações existentes. Poderiam unir forças ao invés de se repelir e se enfraquecer. Mais tarde, durante o segundo grau, descobri que não estava errada nessa forma de pensar.

Buscando o contato com diversos perfis na academia, escolhi estudar na PUC-SP, e logo, conheci o campus de tecnologia por meio do movimento Cultura Empreendedora, que iniciava seus encontros em meu campus de humanas. Aos poucos percebi a nítida diferença de comportamento dos estudantes em geral e da comunidade ligada à computação.

Como estão o tempo todo lidando com resolução de problemas, criando programas, codando, buscando as falhas nos códigos e buscando soluções mais eficientes, o modus operandi dos desenvolvedores precisa ser em forma de colaboração para sobreviverem. São tantas linguagens e formas de resolver os mesmo problemas, além das novidades tecnológicas surgindo, que é humanamente impossível adquirir todo o conhecimento computacional e conseguir resolver todos os problemas sozinho.

Por isso, vivem em comunidades para trocar conhecimento e colaborar com seus colegas de carreira. Todos eles sabem que dependem disso para conseguir desenvolver suas atividades. Devido à isso, possuem um forte senso de comunidade, sabendo da importância de outros para sua formação e do poder de colaborar e compartilhar conhecimento. Quando o mais sênior troca conhecimento com o mais novato, existe a troca da experiência e da novidade. Os dois lados sempre se beneficiam, pois ao ensinar, sempre se aprende.

Com essa cultura enraizada entre esses profissionais, logo se materializaram novos formatos de trabalho, como por exemplo, os programas com os códigos abertos, criados para que a comunidade pudesse participar do desenvolvimento e correção dos sistemas. Os desenvolvedores que participam sabem que estão melhorando um programa que estarão a utilizar, ou seja, seu trabalho beneficia tanto eles quanto os detentores do programa, há um benefício mútuo. O mais notável deles, o LINUX, sistema operacional mais utilizado do mundo, é base do atual Android do Google e já está sendo utilizado nas missões em Marte.

Com a incomparável rapidez e evolução desses sistemas abertos, gigantes como Microsoft, IBM e Google perceberam que o trabalho gerado pelas comunidades pelo mundo é muito mais rápido e eficiente que de seu limitado contingente de funcionários. Então, começaram a mudar a forma de trabalho para sistemas abertos, fazendo um trabalho de troca com suas comunidades, dando acesso aos seus programas em troca o trabalho colaborativo da comunidade.

Para organizar essa forma de trabalho, a forma de liberdade que se é dado nos programas computacionais é definida pelas licenças de uso. Duas licenças muito conhecidas são a Open Source e a Free Software. Como elas apresentaram problemas de compreensão, devido à sua nomenclatura, o público confunde acreditando que a primeira permite códigos sempre abertos e a segunda, códigos sempre gratuitos, o que não é verdade em nenhum dos dois casos.

Pensando em eliminar esse problema de compreensão e adicionando uma visão de negócios, aspecto que falta às licenças de software como um todo, foi criada a CPL – Collaborative Progress License. Com a idea de progresso colaborativo, resumidamente, não só os softwares, mas trabalhos e conteúdos em geral podem ser utilizados, alterados e comercializados, desde que sejam referenciados os conteúdos originais com link para eles, o nome comercial alterado e o novo trabalho deve estar sob a mesma licença Collaborative Progress.

A lógica por trás dessa forma de trabalho é a liberdade de mais pessoas poderem melhorar um trabalho e, por consequência, evoluir o trabalho inicial e de todas as versões existentes, já que também é possível agregar melhorias aos trabalhos anteriores. Então existe, aí, um aproveitamento de conhecimento de mais pessoas da comunidade, que, acabam por construir uma relação de colaboração por um progresso em conjunto. E, claro, os colaboradores devem ser sempre reconhecidos, sendo mencionados a cada atualização.

E, dessa lógica de liberdade e colaboração, surgiram sistemas como o bitcoin e blockchain, usando o poder computacional das máquinas da comunidade global para manter sua operação. Esse formato distribuído de rede está trazendo novas lógicas de relação da sociedade com a tecnologia, que está fazendo governos, instituições de regulação e empresas a repensarem seu papel para adaptar à nova realidade que não tem mais como regredir.

E para as organizações serem as mais sustentáveis, elas devem mergulhar de cabeça nessa cultura de colaboração para o desenvolvimento de seu trabalho junto à sua comunidade. Largar hábitos antigos, mudar a cultura da instituição e aprender com a área de tecnologia é um dos maiores desafios que organizações deverão enfrentar. Além de se beneficiar desse formato, elas poderão se adaptar mais rapidamente à lógica de sistemas distribuídos que irão dominar o mercado dentro das próximas décadas.

2. Cultura Empreendedora

E aproveitando todo esse esforço para mudar a cultura organizacional, já adquira a cultura empreendedora, mindset básico para líderes à frente de qualquer organização. Toda organização que se mantenha por atividades próprias é fundada por empreendedores. Entender pela perspectiva desse perfil é fundamental para manter a sustentabilidade dos negócios, afinal, toda organização precisa estar constantemente inovando, se adaptando às rápidas mudanças do mercado e aprendendo a resolver problemas cada vez de forma mais eficiente. E quem é especialista em fazer tudo isso? Sim, o empreendedor.

É ele que cria novos negócios, acompanha tendências de mercado, sabe enxergar oportunidades, principalmente, em crises, e coloca ideias em prática, assumindo altos riscos do processo. É uma carreira que exige tudo isso, e o mais importante, precisa de muito apoio e suporte de outros perfis ao seu redor, mas sofre com a falta de compreensão da sociedade.

Assim como os nerds são vistos como esquisitos por serem diferentes do usual, os empreendedores possuem uma vida pouco compreendida por aqueles que nunca sentiram a dor de criar sua própria empresa por conta própria. As pessoas no geral não entendem dos riscos envolvidos, não sabem sequer que exista vida sem salário, sem retorno certo e não estão dispostas a sair da rota confortável de salário com férias para uma vida sem horizonte definido.

O senso comum é achar que empreendedores só criam empresas para se tornarem empresários ricos à custa de trabalho mal remunerado de funcionários, quando na verdade, sem eles, não haveriam funcionários, geração de renda ou dinheiro de impostos para manter o Estado. A maioria pensa assim, porque não empreende. Quem empreende é minoria.

Por isso é importante adquirir cultura empreendedora, para saber a importância do papel do empreendedor na sociedade e saber como apoiá-lo. São os perfis com mais estabilidade de funcionários públicos, profissionais de mercado ou acadêmicos, que permite a atuação do perfil mais arriscado e incerto do empreendedor.

As organizações podem apoiar o empreendedor por meio de investimentos, utilizar a solução deles para que recebam o feedback de mercado, tornar-se sócio deles quando possuírem sinergia para alavancar o negócio, ao apresentar clientes ou incorporar o novo empreendimento e absorver ativos interessantes. Além dessa importante aproximação para se oxigenar da comunidade de inovação, as organizações precisam estar acompanhando as tendências de mercado, já que inovações disruptivas podem matar seus próprios negócios.

Você já viu alguém desinventar algo? Uma vez inventado, ou você ganha junto ou será liquidado.

3. Negócios Sustentáveis

E para atuar junto às mudanças de mercado, é importante manter o bom relacionamento com os stakeholders da organização, pois é a partir deles que é possível se nutrir das principais novidades, seja por meio de investidores, clientes, colaboradores, fornecedores, comunidade local etc.. Esse trabalho é conhecido como Licença Social para Operar, ou seja, é necessário se preocupar com as comunidades que são impactadas pelas atividades da organização.

Esse zelo pelos stakeholders, inevitavelmente, faz a organização buscar além dos impactos sociais, os ambientais, pois afetar o meio ambiente afeta as pessoas, seja em sua sobrevivência seja eticamente. Dessa forma, o “tripé da sustentabilidade” se torna alvo das entidades, que por sobrevivência já buscam o impacto econômico desde o nascer e aprendem com o tempo a importância de se envolverem com o socioambiental.

Esses negócios que buscam ser mais sustentáveis são conhecidos como Green Business (negócios sustentáveis) e por serem essenciais para colaborar com os principais problemas globais organizadas pela ONU, fundamos o Green Business Post, um canal de conteúdo focado neles. Acreditamos que os maiores impactadores do planeta, as empresas com ou sem fins lucrativos e governos, podem acelerar as ações sobre os 17 ODS da ONU da agenda 2030.

Saia da caixinha

Além desse imenso trabalho de ESG e problemas globais, as organizações precisam se dedicar a outros aspectos importantes para conseguir subir os degraus do mercado e se adaptar às novas realidades por vir. Aproximar-se das comunidades que impactam, acompanhar tendências tecnológicas e saber como gerar inovações ou interagir com empreendedores são alguns pontos que levantamos.

Durante a pandemia do COVID-19, as organizações que já possuiam processos mais humanizados se destacaram e as menos preparadas deixaram de existir. Vamos deixar que outras avalanches nos peguem de surpresa se podemos antecipá-las? Que tal ser uma greenest business e estar na vanguarda do mercado com mais resiliência perante adversidades?

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2 Comentários

  1. Oi Lenah, ótimo artigo, penso que o tripé em que mencionou no artigo está bastante claro e são pontos bem pertinentes, entendo a grande dificuldade está como medir ou se deve medir isso. Na minha vida profissional, tanto como técnico ou executivo a gente percebe que uma vez é dado uma meta (mensurável), ela substitui o objetivo, e em várias ocasiões assisti a cena do rabo abanando o cachorro, por exemplo, medir o nível da colaboração é muito importante, mas e o resultado econômico devido a essa ação para a empresa pode não ser facilmente correlacionado, e deve-se premiar quem está colaborando, mas premiar um indivíduo ou um grupo desestimula outros grupos acaba não sendo colaborativo no seu conjunto.. como resolver isso? A gestão começa a ficar complexa.
    Entendo que tudo isso é cultura organizacional, os colaboradores devem gostar da fazer isso, porque….. eles gostam. Enfim, os meus 5 centavos..

    1. Author

      Não tinha pensado sobre esse ponto de vista de desestimular um grupo de colaborar… Interessante! Já identifiquei algo na prática nesse sentido, mas preciso mastigar melhor isso. Obrigada pela contribuição ao tema!

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