“Os grandes navegadores devem sua reputação às tempestades”. Gosto desta frase do filósofo grego Epicuro e acho que ela descreve bem o que está acontecendo com os líderes empresariais brasileiros no meio da coronacrise.

*Por Ricardo Voltolini | 07 abril 2020 >> Ouça o audiocast: Google, Spotify

Em situações de exceção, marcadas por grandes incertezas, com forte risco à vida humana, o que fortalece ou diminui os líderes é o que, no limite, nos diferencia na hora de tomar decisões importantes: o nosso sistema de valores, nossos princípios morais e éticos.

O combate à doença, e principalmente a adoção de medidas de isolamento extremas, colocou frente a frente duas visões opostas de liderança: a dos “pragmáticos”, contrários ás estratégias radicais de confinamento, por entenderem que elas asfixiam a economia; e os “humanistas”, defensores da quarentena e da ideia de que nenhuma vida humana vale menos do que toda a economia de um país. 

Os primeiros, estigmatizados por relativizarem as mortes e ameaçarem com desemprego, pagaram um duro preço reputacional—um exemplar notável deste grupo, Júnior Durski, dono do Madero, caiu em desgraça nas redes sociais e viu sua empresa, no meio da crise, ser ameaçada de boicote; depois de pedir desculpas, voltou atrás, caiu atirando e acabou demitindo 600 funcionários.

Os segundos, ao contrário, subiram alguns degraus na percepção da sociedade porque, no começo da pandemia, tiveram o cuidado de pregar o home office aos colaboradores, convocar a cooperação, anunciar a doação de produtos e serviços e apoiar os trabalhadores mais vulneráveis.

Nenhum dos lados está absolutamente certo ou absolutamente errado. Assim é a vida, para além dos maniqueísmos. E embora não goste de julgamentos sumários nem simplórios não há como negar que os “pragmáticos” cometeram um equívoco importante ao submeterem a orientação por valores humanos (respeito às pessoas, altruísmo, solidariedade e justiça) por uma outra, mais perversa, arbitrada pela lógica econômico-financeira e, portanto, essencialmente desumanizada, conhecida por colocar os números á frente das pessoas.

Na prática, ao preferirem as objeções numéricas no lugar dos argumentos humanos, o que os “pragmáticos” fizeram foi destruir a confiança num momento em que apenas ela, graças ao seu valor social intrínseco, é capaz de reduzir inseguranças, lançar alguma luz sobre horizontes escuros e sossegar o coração de pessoas forçosamente arrancadas do seu trabalho e do convívio com a família e os amigos.

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A confiança nada mais é do que a crença que temos de que, na hora H, o que e quem não podem faltar não faltarão. Nas situações de catástrofe social, cuja regra é punir mais duramente os mais fracos, esperamos dos mais fortes, inevitavelmente, altruísmo, solidariedade e justiça. Essa expectativa, instintiva em tempos de guerra, aplica-se a governos e empresas, mas também aos mais ricos e aos líderes.

Nas crises, precisamos de cuidado, atenção, proteção. Não de chantagem disfarçada de boa intenção. Isso explica por que, no olho do furacão, os líderes “humanistas”, aqueles que demostraram se preocupar mais com o bem comum do que com seus próprios interesses, cresceram aos olhos do público. E também por que, na outra ponta, os líderes “pragmáticos” cavaram diante de si um abismo de antipatia, estabelecendo uma distância desconfortável do afeto das pessoas.

Confiança tem a ver com lealdade, verdade, coesão, convergência, previsibilidade e ordenamento das relações sociais. Traz paz e serenidade, segundo Dostoiévski. Consiste em fator determinante, de acordo com Fukuyama, para a vida econômica e o bem-estar de uma nação. Só existe confiança quando as relações são dirigidas por valores humanos. Para usar o exemplo de Epicuro sobre os navegadores, só confiamos no capitão cujos valores, manifestados em atitudes, demonstrem que ele dará a própria vida para proteger a sua tripulação numa tormenta. Nos temporais, não por outra razão, os líderes orientados por valores sobressaem.

A ideia da liderança com valores, vale destacar, não é exatamente nova. Os ingleses Richard Barrett (com o conceito  de líder “dirigido por valores”) e Charles Handy (criador do líder com “espírito ávido”), e os norte-americanos Peter Drucker (líder é “como ser”, não “como fazer”) e Jim Collins (o líder de “Nível 5”) já a abordaram, em diferentes momentos, com diferentes ênfases. No entanto, ela nunca pareceu tão atual, urgente e necessária. A transição do business as usual para um modelo de negócio baseado no propósito antes do lucro, mensagem cada vez mais presente em círculos capitalistas que pregam um novo tipo de capitalismo, só será possível com líderes mais éticos, transparentes e íntegros, que gostam de gente e respeitam o meio ambiente.

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Jean Jereissati, CEO da Ambev é, penso, um desses líderes. Para que o leitor forme uma compreensão melhor do que significa este novo “modelo mental” de liderança, divido algumas ideias que ele me contou há alguns dias: “Ninguém está preparado para enfrentar uma crise como esta do Covid-19. O que faz a diferença nesses momentos é a vontade de ajudar e saber o que fazer. E essas coisas não são triviais quando se está sob pressão e diante do desconhecido. Neste momento, precisamos manter os pés no chão, reconhecer a nossa humanidade e o fato de estarmos todos cheios de incertezas, lutando pela sobrevivência de indivíduos e organizações. Temos uma urgência inédita de que empresas, marcas e indivíduos estejam unidos. O mundo ficou ainda mais conectado, mas também mais dividido do que nunca.”

À frente de uma iniciativa que está construindo um hospital na cidade de São Paulo, Jean deseja que superemos a crise o mais rapidamente possível. E que, passada a pandemia, observe-se uma “virada de chave” para a criação de negócios cada vez mais voltados para impactos positivos. Seu sonho pessoal é que, desta situação, emerja uma “nova realidade empresarial”, capaz de ativar todo o potencial econômico do Brasil, com base no conceito de colaboração.

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liderança ricardo voltolini

Ricardo Voltolini é CEO da consultoria Ideia Sustentável. Professor, palestrante, conselheiro de empresas e mentor de líderes em sustentabilidade, fundou e coordena a Plataforma Liderança Com Valores (www.liderancacomvalores.com.br). Escreveu, entre outros livros, Conversas com Líderes Sustentáveis (SenacSP/2011), Escolas de Líderes Sustentáveis (Elsevier/2014) e Sustentabilidade como fonte de inovação (Ideia Sustentável/2016)

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2 Comentários

  1. Ótimo artigo, só gostaria de propor uma pequena reflexão, pois acredito existirem espectros intermediários entre essas duas pontas, ou seja entre os pragmáticos e humanistas existem pessoas que podem estar no meio, levando em consideração o melhor dos dois lados.

    1. Author

      Bill Gates já previu as pandemias em um TED em 2015. E, recentemente, opinou sobre as ações que os Estados deveriam tomar para combater a pandemia da forma mais rápida possível para afetar menos a economia da qual todos dependem. Em seu discurso, o foco é o isolamento, para a queda da curva de infectados. E, claro, junto à Fundação Bill e Melinda Gates, eles possuem ações para ajudar os mais vulneráveis. Talvez seja esse o perfil misto que você se refira?

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