O Vale do Ribeira é um bolsão de pobreza no Sul de São Paulo, o Estado mais rico do país. E Barra do Turvo é a cidade mais pobre da região.

Historicamente, a região foi preterida em favor de outras áreas para instalação de indústrias e grandes projetos agrícolas e hoje estas atividades não podem se instalar na região porque o Vale – uma das maiores áreas remanescentes de Mata Atlântica – é protegido por leis ambientais.

O resultado: uma agricultura que mal chega a ser de subsistência, a ausência quase absoluta de atividade industrial, indicadores sociais bem abaixo da média do Estado e um desesperado pedido da população para que um novo governo que trabalhe no desenvolvimento da economia da área.

“Precisava de um incentivo do governo, porque aqui a condição do povo também é fraca. Tem muita gente que quer trabalhar, mas não tem condição”, conta o sitiante Sebastião Lima, de 38 anos.

“A população tem de ser beneficiada e ter o seu padrão de vida melhorado por manter a floresta de pé. Se isto não acontecer, fica difícil em um país pobre e cheio de carências como o nosso convencer alguém a preservar a natureza exclusivamente pela consciência ecológica” – Socióloga Lúcia Costa Lima

“Baixo desenvolvimento”

De acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o órgão de estudos sócio-econômicos do estado de São Paulo, Barra do Turvo faz parte do grupo de municípios de mais baixo “índice de responsabilidade social”, cidade definidas como “de baixo desenvolvimento econômico e social.”

“O grupo é formado por aquelas localidades tradicionalmente pobres, caracterizadas, simultaneamente, pelos baixos níveis de riqueza municipal, longevidade e escolaridade. O perfil principal deste agrupamento é dado por municípios de pequeno porte, muitos deles predominantemente rurais, marcados pela lógica tradicional da pobreza e pela incapacidade local em lograr com avanços significativos no campo social”, escrevem os técnicos do órgão.

Apesar da miséria, Barra do Turvo tem uma grande riqueza: a floresta. Mas a população ainda não percebe os benefícios de ter no seu quintal um dos maiores exemplos de biodiversidade do planeta.

“O pessoal de meio ambiente não deixa nem a gente derrubar uma capoeira para plantar um feijãozinho. A gente tem de trabalhar”, reclama a sitiante Sebastiana Silva, de 63 anos.

A agricultora sem plantação também gostaria de ver uma indústria instalada na área “para dar trabalho para o pessoal, que a turma aqui é toda muito pobre.”

O prefeito Edson de Oliveira, do PFL, ecoa a reclamação de muitos moradores em relação às áreas de preservação ambiental.

“O nosso grande problema hoje tem nome: é meio ambiente”, diz.

O prefeito – também dono de um posto de gasolina no Vale – quer que as leis ambientais sejam modificadas para permitir a instalação de projetos agrícolas e industriais na área.

“Não precisamos derrubar floresta. Tem terrenos que já estão ocupados há décadas, que já não tem mais mata, e que não podem ser usados para nada”, queixa-se.

Edson de Oliveira também diz que a compensação dada pelo Estado aos municípios que mantém áreas de conservação ambiental – o ICMS Verde – é muito baixo.

“A gente recebe R$ 50 mil por mês do ICMS Verde, enquanto estaria recebendo pelos menos R$ 200 mil por mês se tivesse atraído alguma indústria para cá”, diz.

A diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam) da Unicamp e especialista em Vale do Ribeira, Lúcia Costa Lima, concorda com a reclamação de Oliveira – e de outros prefeitos do Vale – a respeito do valor “irrisório” do ICMS Verde.

Mas é enfática ao rechaçar a idéia de que indústria e agricultura sejam a solução.

Para a socióloga, Barra do Turvo e as outras cidades têm de se beneficiar de um ativo que possuem e está altamente valorizado neste novo milênio: a biodiversidade.

“A população tem de ser beneficiada e ter o seu padrão de vida melhorado por manter a floresta de pé. Se isto não acontecer, fica difícil em um país pobre e cheio de carências como o nosso convencer alguém a preservar a natureza exclusivamente pela consciência ecológica”, disse.

Otimismo

Mas apesar dos problemas, a pesquisadora está otimista em relação ao futuro do Vale do Ribeira não importando o governo que assumirá a gestão nos próximos anos.

“Não importa se o Lula vai vencer ou se o Serra vai vencer. Acho que o Vale do Ribeira vai ser beneficiado por políticas públicas porque esta é uma demanda até internacional”, avalia.

“O Vale do Ribeira pode ser uma ótima experiência de como fazer o desenvolvimento sustentável no Brasil. A região é maravilhosa para o ecoturismo e já há comunidades iniciando projetos ótimos de extrativismo
sustentável, como do palmito”, diz.

Lucia espera que a luta pela manutenção da biodiversidade mobilize politicamente uma região onde eleições têm muitas vezes pouco significado.

“Trata-se de uma região em geral conservadora e que foi desmobilizada politicamente pela ação do governo militar contra focos de guerrilha que surgiram na área nos anos 70. Além disso, os colégios eleitorais da região não tem capacidade de colocar na Assembléia paulista e na Câmara Federal.”

Por enquanto, entre a população mais pobre de Barra do Turvo, a política ainda segue muito o padrão clientelista encontrado em profusão no interior do Brasil.

“Os candidatos que eu votei ganharam todos e até agora não me deram o cano de água que prometeram. Vou largar mão de votar”, reclamou o agricultor David Ferreira Ramos.

A sitiante Sidinéia de Pontes conta que lembra de ter votado em José Serra para presidente e em Geraldo Alckmin para o governo.

“Nos outros eu votei também, mas não lembro em quem”, contou menos de três semanas depois de ter ido à urna.

Seria muito bom para cidade que os novos deputados federais e estaduais, senadores, o governador e o presidente da república não esquecessem eles também, depois de empossados, dos votos que receberam neste em outros municípios muito necessitados do Brasil.

Fonte: BBC Brasil.

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